Quem financiou o filme-farsa da Lava-Jato?

O Sindicato dos Advogados SP decidiu ir à Justiça para descobrir quem são os financiadores

Escrito por: Altamiro Borges • Publicado em: 05/09/2017 - 14:32 • Última modificação: 05/09/2017 - 14:34 Escrito por: Altamiro Borges Publicado em: 05/09/2017 - 14:32 Última modificação: 05/09/2017 - 14:34

Crédito: Agência Brasil

O Sindicato dos Advogados de São Paulo decidiu ingressar com uma ação na Justiça exigindo a apresentação dos nomes dos financiadores do filme “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”, que estreará nos cinemas em 7 de setembro. Conforme explica Aldimar de Assis, presidente da entidade, “essa questão está obscura e nossos associados, que defendem réus da Lava Jato, estão preocupados porque as pessoas são apresentadas como culpadas antes mesmo do julgamento final de seus processos. Será que os patrocinadores são de empresas que prestam serviços públicos? Há algum interesse eleitoral nesse filme?”.

Até hoje, o filme panfletário – que parece uma peça de propaganda do Estado de Exceção – está envolto em mistérios. Sabe-se apenas que ele custou uma fortuna – R$ 16 milhões – e que conta em seu elenco com vários atores da TV Globo. Mas os seus produtores se negam a dizer quem bancou a obra. Qual a razão para tanto segredo? Nesta quarta-feira (30), o blogueiro Luis Nassif deu uma pista, revelando que um dos financiadores, o empresário Sérgio Amoroso, é investigado pela própria Polícia Federal e pelo Ministério Público do Pará. A mídia golpista, que tem feito o maior escarcéu com o filme, evita investigar as origens da grana. Daí a importância da denúncia de Luis Nassif.

Sérgio Amoroso, o falso ambientalista

Segundo informa, “o principal financiador do filme sobre a Lava Jato, o empresário Sérgio Amoroso, é um tipo controvertido. Self-made-man, começou a vida como office boy, montou uma companhia de venda de papéis e, em 1999 conseguiu assumir o controle do Projeto Jari, que estava sob intervenção do BNDES, pagando 1 real e assumindo as dívidas. Desde então, tornou-se uma espécie de Dr. Jekill e Mr. Hide do setor de celulose. Numa ponta, ele recebeu prêmios de responsabilidade corporativa, apregoando a defesa da sustentabilidade, as iniciativas em favor de crianças com câncer, entre outras atividades meritórias”.

Esta biografia adocicada, porém, não corresponde à realidade, ainda de acordo com o blogueiro. “No silêncio da selva amazônica, as informações que poucas vezes chegavam ao sudeste mostravam um perfil diferente. No dia 4 de dezembro de 2015, uma operação da Polícia Federal foi atrás de agentes públicos do estado do Pará, da Secretaria do Meio Ambiente e do Instituto de Terra do Pará, envolvidos em fraudes no sistema de comércio florestal, beneficiando justamente o Projeto Jari. Houve buscas e apreensões em 41 endereços ligados a cinco empresas. Houve duas prisões preventivas e 16 temporárias”.

A Polícia Federal descobriu que o mesmo tipo de operação com evidência de fraude envolveu a Jari em outros planos de manejo. O golpe foi batizado de “lavagem de madeira”. Segundo o Ministério Público Federal do Pará, “a madeira retirada em desmatamentos ilegais na Amazônia entra nos sistemas de controle da comercialização de produtos florestais por meio de fraude em planos de manejo aprovados pelo poder público, geralmente em nome de laranjas. Comprada por grandes empresas exportadoras, a madeira derrubada ilegalmente é vendida com aparência de legalidade no exterior”.

Somente em um dos planos, segundo o Ministério Público, foram movimentados mais de R$ 28 milhões em madeira ilegal entre dezembro de 2014 e fevereiro deste ano. Ainda de acordo com Luis Nassif, a PF constatou que 81% da madeira fraudada tinha sido destinada à Jari Florestal S.A., de Sérgio Amoroso. “Era tanta madeira que necessitava do equivalente a uma frota de 220 caminhões para ser transportada. O golpe da Jari se ampliou com a compra de créditos para a comercialização de ipê de sete empresas próximas a Belém. A fraude era tão escancarada que os registros indicavam que a madeira levou 10 minutos para ser transportada de Almerim a Belém, a 800 km de distância”.

Tentativa de comprar a proteção com o filme?

A investigação “foi apenas o desfecho de uma aventura empresarial enganosa. Amoroso criava uma falsa blindagem com os seus projetos beneméritos. Mas desde a compra da Jari mergulhou em vários problemas financeiros... Sobram denúncias de abusos cometidos na Amazônia. Montou um negócio de madeira em que o plantio era de sitiantes. Aqueles que não concordavam em aderir ao plantio eram ameaçados. Em duas ocasiões realizou demissões maciças de trabalhadores. Em 2008 recebeu R$ 170 milhões do BNDES para o financiamento do plantio de eucalipto, com a condição de manter os empregos. Para firmar posição a favor do emprego admitiu 800 trabalhadores. Mal recebeu o financiamento, demitiu 700”.

Luis Nassif concluiu seu artigo lançando uma hipótese bem cabível. “Este ano, surgiram notícias de dificuldade de pagamentos a terceirizados, além de alguns pedidos de falência. Aparentemente, financiando o filme, Amoroso visou comprar proteção”. A sua denúncia é bombástica e reforça a ação do Sindicato dos Advogados de São Paulo para exigir esclarecimentos sobre os nomes dos sinistros financiadores do filme “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”.

 

Será que a lei é realmente para todos? Será que ela vale inclusive para o justiceiro da Lava-Jato, o herói dos falsos moralistas? Que tal um filme sobre o advogado Rodrigo Tacla Duran, que na semana passada acusou o advogado trabalhista Carlos Zucolotto Junior, amigo e padrinho de casamento do juiz Sergio Moro, de intermediar negociações paralelas dele com a força-tarefa da Operação Lava Jato?

Em tempo: Sobre o filme – que eu não assisti e nem vou gastar meu dinheiro à toa –, vale conferir a crítica do jornalista Bernardo Mello Franco, publicada na Folha na semana passada:

*****

Filme sobre a Operação Lava Jato tropeça em clichês e exageros

Ninguém esperava uma versão nacional de "Todos os Homens do Presidente". Mesmo assim, "Polícia Federal - A Lei é Para Todos" fica devendo, e muito, para uma produção que se propõe a recriar a maior operação anticorrupção do país.

Com orçamento milionário e elenco de globais e ex-globais, o filme exagera no tom de exaltação da Operação Lava Jato.

O resultado é uma trama maniqueísta, sem nuances, que, em vários momentos, se assemelha a uma peça de propaganda.

Depois dos créditos iniciais, uma citação de Ruy Barbosa dá uma ideia do que vem a seguir: "De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto".

O roteiro não tem vergonha de nada: retrata investigadores como heróis quase infalíveis e recorre à caricatura para barrar qualquer empatia com os investigados.

A produção assume um partido desde o título: o partido da polícia. A ação é comandada por um trio de delegados determinados a prender políticos corruptos e passar o país a limpo.

O protagonismo dos homens de preto é tanto que os procuradores da força-tarefa e o juiz Sergio Moro, representado pelo galã Marcelo Serrado, ficam relegados a papéis secundários.

O filme adota tratamento desigual até na apresentação dos personagens.

Políticos e empreiteiros aparecem com nomes reais, como Lula e Marcelo Odebrecht. Os investigadores são protegidos por pseudônimos, embora alguns pareçam clones dos originais.

Os diálogos patinam em clichês como "a corrupção chegou aqui com as primeiras caravelas" e "o sistema é feito para não funcionar".

Os trechos que se salvam são os que contam como uma apuração corriqueira, com foco na ação de um doleiro, abriu caminho para a descoberta de um gigantesco esquema de corrupção na Petrobras.

No entanto até nisso a produção tropeça na inverossimilhança. Numa passagem, policiais remexem papéis queimados numa churrasqueira e descobrem contas secretas na Suíça.

Em outra, um delegado acorda no momento em que a presidente Dilma Rousseff anuncia, na TV, a nomeação de Lula para a Casa Civil.

Como o fato ocorreu às 16h de uma quarta-feira, fica a suspeita de que alguém dormiu demais: o personagem ou o roteirista.

O empenho em defender a Lava Jato de qualquer crítica deve empolgar os foliões do Morobloco, mas pode afastar um público mais moderado das salas de exibição.

Num momento em que a Lava Jato cerca o governo Temer e atinge políticos de todos os grandes partidos, a ênfase nas acusações ao PT passa a impressão de que o filme resolveu contar apenas uma parte da história.

Os produtores prometem ampliar o leque de vilões numa continuação. O problema será convencer os espectadores do primeiro episódio a retornarem ao cinema.

 

 

 

Título: Quem financiou o filme-farsa da Lava-Jato?, Conteúdo: O Sindicato dos Advogados de São Paulo decidiu ingressar com uma ação na Justiça exigindo a apresentação dos nomes dos financiadores do filme “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”, que estreará nos cinemas em 7 de setembro. Conforme explica Aldimar de Assis, presidente da entidade, “essa questão está obscura e nossos associados, que defendem réus da Lava Jato, estão preocupados porque as pessoas são apresentadas como culpadas antes mesmo do julgamento final de seus processos. Será que os patrocinadores são de empresas que prestam serviços públicos? Há algum interesse eleitoral nesse filme?”. Até hoje, o filme panfletário – que parece uma peça de propaganda do Estado de Exceção – está envolto em mistérios. Sabe-se apenas que ele custou uma fortuna – R$ 16 milhões – e que conta em seu elenco com vários atores da TV Globo. Mas os seus produtores se negam a dizer quem bancou a obra. Qual a razão para tanto segredo? Nesta quarta-feira (30), o blogueiro Luis Nassif deu uma pista, revelando que um dos financiadores, o empresário Sérgio Amoroso, é investigado pela própria Polícia Federal e pelo Ministério Público do Pará. A mídia golpista, que tem feito o maior escarcéu com o filme, evita investigar as origens da grana. Daí a importância da denúncia de Luis Nassif. Sérgio Amoroso, o falso ambientalista Segundo informa, “o principal financiador do filme sobre a Lava Jato, o empresário Sérgio Amoroso, é um tipo controvertido. Self-made-man, começou a vida como office boy, montou uma companhia de venda de papéis e, em 1999 conseguiu assumir o controle do Projeto Jari, que estava sob intervenção do BNDES, pagando 1 real e assumindo as dívidas. Desde então, tornou-se uma espécie de Dr. Jekill e Mr. Hide do setor de celulose. Numa ponta, ele recebeu prêmios de responsabilidade corporativa, apregoando a defesa da sustentabilidade, as iniciativas em favor de crianças com câncer, entre outras atividades meritórias”. Esta biografia adocicada, porém, não corresponde à realidade, ainda de acordo com o blogueiro. “No silêncio da selva amazônica, as informações que poucas vezes chegavam ao sudeste mostravam um perfil diferente. No dia 4 de dezembro de 2015, uma operação da Polícia Federal foi atrás de agentes públicos do estado do Pará, da Secretaria do Meio Ambiente e do Instituto de Terra do Pará, envolvidos em fraudes no sistema de comércio florestal, beneficiando justamente o Projeto Jari. Houve buscas e apreensões em 41 endereços ligados a cinco empresas. Houve duas prisões preventivas e 16 temporárias”. A Polícia Federal descobriu que o mesmo tipo de operação com evidência de fraude envolveu a Jari em outros planos de manejo. O golpe foi batizado de “lavagem de madeira”. Segundo o Ministério Público Federal do Pará, “a madeira retirada em desmatamentos ilegais na Amazônia entra nos sistemas de controle da comercialização de produtos florestais por meio de fraude em planos de manejo aprovados pelo poder público, geralmente em nome de laranjas. Comprada por grandes empresas exportadoras, a madeira derrubada ilegalmente é vendida com aparência de legalidade no exterior”. Somente em um dos planos, segundo o Ministério Público, foram movimentados mais de R$ 28 milhões em madeira ilegal entre dezembro de 2014 e fevereiro deste ano. Ainda de acordo com Luis Nassif, a PF constatou que 81% da madeira fraudada tinha sido destinada à Jari Florestal S.A., de Sérgio Amoroso. “Era tanta madeira que necessitava do equivalente a uma frota de 220 caminhões para ser transportada. O golpe da Jari se ampliou com a compra de créditos para a comercialização de ipê de sete empresas próximas a Belém. A fraude era tão escancarada que os registros indicavam que a madeira levou 10 minutos para ser transportada de Almerim a Belém, a 800 km de distância”. Tentativa de comprar a proteção com o filme? A investigação “foi apenas o desfecho de uma aventura empresarial enganosa. Amoroso criava uma falsa blindagem com os seus projetos beneméritos. Mas desde a compra da Jari mergulhou em vários problemas financeiros... Sobram denúncias de abusos cometidos na Amazônia. Montou um negócio de madeira em que o plantio era de sitiantes. Aqueles que não concordavam em aderir ao plantio eram ameaçados. Em duas ocasiões realizou demissões maciças de trabalhadores. Em 2008 recebeu R$ 170 milhões do BNDES para o financiamento do plantio de eucalipto, com a condição de manter os empregos. Para firmar posição a favor do emprego admitiu 800 trabalhadores. Mal recebeu o financiamento, demitiu 700”. Luis Nassif concluiu seu artigo lançando uma hipótese bem cabível. “Este ano, surgiram notícias de dificuldade de pagamentos a terceirizados, além de alguns pedidos de falência. Aparentemente, financiando o filme, Amoroso visou comprar proteção”. A sua denúncia é bombástica e reforça a ação do Sindicato dos Advogados de São Paulo para exigir esclarecimentos sobre os nomes dos sinistros financiadores do filme “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”.   Será que a lei é realmente para todos? Será que ela vale inclusive para o justiceiro da Lava-Jato, o herói dos falsos moralistas? Que tal um filme sobre o advogado Rodrigo Tacla Duran, que na semana passada acusou o advogado trabalhista Carlos Zucolotto Junior, amigo e padrinho de casamento do juiz Sergio Moro, de intermediar negociações paralelas dele com a força-tarefa da Operação Lava Jato? Em tempo: Sobre o filme – que eu não assisti e nem vou gastar meu dinheiro à toa –, vale conferir a crítica do jornalista Bernardo Mello Franco, publicada na Folha na semana passada: ***** Filme sobre a Operação Lava Jato tropeça em clichês e exageros Ninguém esperava uma versão nacional de Todos os Homens do Presidente. Mesmo assim, Polícia Federal - A Lei é Para Todos fica devendo, e muito, para uma produção que se propõe a recriar a maior operação anticorrupção do país. Com orçamento milionário e elenco de globais e ex-globais, o filme exagera no tom de exaltação da Operação Lava Jato. O resultado é uma trama maniqueísta, sem nuances, que, em vários momentos, se assemelha a uma peça de propaganda. Depois dos créditos iniciais, uma citação de Ruy Barbosa dá uma ideia do que vem a seguir: De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto. O roteiro não tem vergonha de nada: retrata investigadores como heróis quase infalíveis e recorre à caricatura para barrar qualquer empatia com os investigados. A produção assume um partido desde o título: o partido da polícia. A ação é comandada por um trio de delegados determinados a prender políticos corruptos e passar o país a limpo. O protagonismo dos homens de preto é tanto que os procuradores da força-tarefa e o juiz Sergio Moro, representado pelo galã Marcelo Serrado, ficam relegados a papéis secundários. O filme adota tratamento desigual até na apresentação dos personagens. Políticos e empreiteiros aparecem com nomes reais, como Lula e Marcelo Odebrecht. Os investigadores são protegidos por pseudônimos, embora alguns pareçam clones dos originais. Os diálogos patinam em clichês como a corrupção chegou aqui com as primeiras caravelas e o sistema é feito para não funcionar. Os trechos que se salvam são os que contam como uma apuração corriqueira, com foco na ação de um doleiro, abriu caminho para a descoberta de um gigantesco esquema de corrupção na Petrobras. No entanto até nisso a produção tropeça na inverossimilhança. Numa passagem, policiais remexem papéis queimados numa churrasqueira e descobrem contas secretas na Suíça. Em outra, um delegado acorda no momento em que a presidente Dilma Rousseff anuncia, na TV, a nomeação de Lula para a Casa Civil. Como o fato ocorreu às 16h de uma quarta-feira, fica a suspeita de que alguém dormiu demais: o personagem ou o roteirista. O empenho em defender a Lava Jato de qualquer crítica deve empolgar os foliões do Morobloco, mas pode afastar um público mais moderado das salas de exibição. Num momento em que a Lava Jato cerca o governo Temer e atinge políticos de todos os grandes partidos, a ênfase nas acusações ao PT passa a impressão de que o filme resolveu contar apenas uma parte da história. Os produtores prometem ampliar o leque de vilões numa continuação. O problema será convencer os espectadores do primeiro episódio a retornarem ao cinema.      



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